Três lições materiais

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela,
a minha múltipla companheira, é uma coluna silenciosa e
ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.
Cheguei a um limbo: fundo vazio de silenciosa brancura:
volto à ausência, ao ventre da sombra, onde sou uma semente
adormecida no enigma da brisa. A minha alma é ao
mesmo tempo a tecedeira das viagens e a pastora calada na
absoluta imobilidade da recepção.
Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os
insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas
Com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido,
Uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos
são os vocábulos que compõem as constelações legíveis,
intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é
um estremecimento.

Antonio Ramos Rosa