Promessa

 

És tu a Primavera que eu esperava,

A vida multiplicada e brilhante,

Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria

Os olhos do poeta

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da Terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando como contos de fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas prò mar amaldiçoando a tempestade:
‑ todas as cores, todas as formas do mundo se agitam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas,
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

 

Manuel da Fonseca

 

Três lições materiais

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela,
a minha múltipla companheira, é uma coluna silenciosa e
ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.
Cheguei a um limbo: fundo vazio de silenciosa brancura:
volto à ausência, ao ventre da sombra, onde sou uma semente
adormecida no enigma da brisa. A minha alma é ao
mesmo tempo a tecedeira das viagens e a pastora calada na
absoluta imobilidade da recepção.
Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os
insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas
Com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido,
Uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos
são os vocábulos que compõem as constelações legíveis,
intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é
um estremecimento.

Antonio Ramos Rosa

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

Ana Cristina Cesar

dentro de mim faz Sul

*

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

Ondjaki:  http://www.kazukuta.com/ondjaki/

Memoria de um a mor que nunca foi

Depois volto a beber
o luminoso veneno em que escureço
e o dia regressa,
mendigo e magro,
buscando em mim
lembrança de um amor
que de tanto ser
não saberá nunca ter lembrança.

Mia Couto