A Linha Imaginária

Vida suplementar,
tão próxima de ti,
tão evidente,
nas dobras deste enigma sereno.

Um pensamento só, voltar à infância,
um desejo qualquer, basta a esperança,
e refloresces em dádivas e gestos.

Este braço de mar é teu, – podes guardá-lo,
esta paz,
este azul,
este piano,
esta nesga de céu que o vento espalha.

Tudo tão próximo de ti,
tão ligado ao teu cotidiano,
ao teu suor diurno,
às tuas vigílias,
às tuas palavras que emprestas
uma outra significação.

Só agora percebes
a tua absurda neutralidade
diante deste fim de tarde,
deste sino que é a tua primeira
e única
memória musical,
desta noite,
caindo leve
sobre a tua cidade.

Só agora buscas o espelho
que procuravas evitar,
só agora tentas restabelecer
todos os elos que ainda justificam tua mísera existência, reconstituir todos os fatos,
– mesmo os não evidentes –
o Fiat,
a Paixão,
os elementos,
o riso do amigo mais amado.

Só agora te permites a inutilidade
deste gesto fraterno;
só agora ousas confessar
a saudade
que há tanto tempo agasalhaste na sombra,
– de ti mesmo,
– dos teus brinquedos favoritos,
– da mansa voz
do teu primeiro amor.

Só agora te serves desta aurora,
tão próxima de ti,
tão evidente,
nas dobras deste enigma sereno.

Ruy Barata