Um amor

“Por ti junto aos jardins recém-enflorados me doem os perfumes de primavera.

Esqueci teu rosto, não recordo de tuas mãos, de como beijavam teus lábios?

Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques, as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.

Esqueci tua voz, tua voz alegre, esqueci de teus olhos.

Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança imprecisa.

 Estou perto da dor como uma ferida, se me tocas me maltratarás irremediavelmente.

Tuas carícias me envolvem como as trepadeiras aos muros sombrios.

Esqueci teu amor e não obstante te adivinho atrás de todas as janelas.

Por ti me doem os pesados perfumes do estio: por ti volto a espreitar os signos que

precipitam os desejos, as estrelas em fuga, os objetos que caem.”

 

Pablo Neruda

 

Não é preciso

Não é preciso assobio
para estar só,
para viver a escuras.

Em plena multidão, em pleno céu,
nós nos lembramos de quem nós éramos,
ao íntimo, ao desnudo,
ao único que sabe como crescem suas unhas,
que sabe como se faz seu silêncio
e suas pobres palavras.
Há Pedro para todos,
luzes, satisfatórias Berenices,
mas, para dentro,
por debaixo da idade e vestimenta,
ainda não temos nome,
somos de outra maneira.
Não só para dormir os olhos se fecharam
mas sim para não ver o mesmo céu.
Nós cansamos de súbito
e como se tocassem no campanário
para entrar ao colégio,
regressamos à pétala escondida,
para o osso, para a raiz semi-secreta,
e ali, súbito, somos,
somos aquele puro e não lembrado,
somos o verdadeiro
entre os quatro muros de nossa única pele,
entre as duas espadas de viver e de morrer.

 

 

Pablo Neruda

 

O vento na ilha


O vento é um cavalo
ouça como ele corre
pelo mar, pelo céu.Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me longe
Esconde-me em teus braços
por esta noite somente,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
suas incontáveis bocas.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me longe.
Com teu peito em meu peito,
com tua boca em minha boca.
nossos corpos atados
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando nas sombras,
enquanto eu, submerso
debaixo de teus grandes olhos,
por esta noite somente
descansarei, meu amor.

(para meu amor…meu amor…)
“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
A noite está estrelada e ele não está comigo.”

Pablo Neruda

LXXVIII

Não tenho nunca mais, não tenho sempre,
Na areia a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto  a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Te amo. Não dou, não vendo espinhos.

Alguém saberá  talvez que não teci coroas
sangrentas, que combati o engano,
e que em verdade enchi a preamar de minha alma.
Eu paguei a vileza com pombas.

Eu não tenho jamais porque distinto
fui, sou, serei. E em nome
de meu mutante amor proclamo a pureza.

A morte é só pedra do esquecimento.
Te amo, beijo em tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Faremos fogo na montanha.

Pablo Neruda

Áspero amor

Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores, corola de cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de meu caminho ?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra que fumaça, mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste.
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
 
Pablo Neruda