Felicidade

“Eu poderia, por exemplo mencionar uma série de versos e poemas que amei décadas a fio e ainda amo, não pelo sentido, sabedoria ou conteúdo em experiencia, bondade, grandeza, mas unicamente por uma determinada rima, um determinado desvio rítmico do esquema convencional, a escolha de vogais prefridas, que o escritor pode ter feito de modo tão consciente quanto o leitor que as exercita.

Da construção e ritmo do texto de Goethe ou Brentano, de Lessing ou E. Th. A. Hoffmann, pode-se deduzir muito mais sobre as caracteristicas, a tendencia física e espiritual do escritor, do que daquilo que esse trecho de prosa nos diz.Há frases  que podem estar  no texto de vários escritores, e outras que só seriam possíveis em um único desses músicos da linguagem.Para nós as palavras são a mesma coisa que as cores da paleta do pintor.Existem incontáveis delas, e surgem sempre novas, mas as boas palavras, as verdadeiras, são menos numerosas, e em setenta anos de vida não vi surgir nenhuma nova.

Entre as palavras existem para cada falante as prediletas e as estranhas, preferidas e evitadas, cotidianas – que se usam mil vezes sem temer o desgaste – e outras – solenes  – que por mais que as amemos, só pronunciamos ou escrevemos com cuidado e reflexão, como objetos raros: fazendo as escolhas que correspondem a essa sua solenidade.

Entre elas está para mim a palavra felicidade.

É uma  dessas que sempre amei e escutei com prazer.

Por mais que se discuta e argumente sobre seu significado, seja como for, ela significa algo belo, bom e desejável.”     

Hermann Hesse em Felicidade.

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Procura

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“- Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.”

Hermann Hesse – Sidarta