Se eu fosse um anjo

Se eu tivesse asas,
fosse um anjo,
poderia cingir-te aos braços
sem a volúpia que me inflama
e não roubaria beijos
da boca que não me ama.

Poderia, talvez pudesse,
serenar-te o ânimo
murmurando velhas fábulas
de amizades inumanas.
Se eu tivesse asas,
fosse um anjo.

Poderia, talvez pudesse,
levar-te às estrelas,
onde se pode entender
a insignificância de tudo.
Se eu tivesse asas,
fosse um anjo.

Mas não sou um anjo.
Pulsam, em mim, 
as paixões que movem a espécie humana
e o meu desejo 
é maior que a razão que a hora clama.

 

Fred Matos

 

 

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Descaminhos

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Não devo demorar-me nas memórias
que guardam as razões e fantasias
de onde meus versos emergem
como meros fragmentos
até então de mim ocultos.

Urge uma fotografia deste instante
quando todas as lembranças são vãs
e a esperança foi um inseto que passou.

Fred Matos  

Confissão

Entre o que sinto e o que traço,
o que penso ser e o que pareço,
sou o aflito que disfarço.

Minha vida foi perdida. Padeço
da covardia, atávica e mórbida
dos que se amoldam ao contexto.

Minha alma foi fraudada. Ardo
de anseios postergados. Tardo
em dar cabo aos meus medos.

 Fred Matos