Quem

Há entre mim e os meus passos

Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou

Uma diferença de verbo que corresponde à realidade.

Alvaro de Campos

 

Nunca, Por Mais

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem —
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

Alvaro de Campos

Se te queres matar

Noturno de dia

…Não: o que tenho é sono.
O que? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez não ser célebre,
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade…
O que tenho é sono, meu velho, sono…
Deixem-me pelo menos ter sono; quem sabe que mais terei?
Álvaro de Campos 

Dois excertos de odes

(fins de duas odes, naturalmente)

 

I

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos…
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realme:nte e mandando tudo…
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso é inútil.
Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração…
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.
A lua começa a ser real.

II

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do “Sentimento de um Ocidental”!
Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Umedece interiormente o instante lento e longínquo!
Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar …
Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a idéia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
— Tu que me conheces — quem eu sou …

 

Alvaro de Campos

Sou eu

 Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
 Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
 Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
 Sou eu aqui em mim, sou eu. 
 Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
 Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
 Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
 Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
 De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
 Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
 Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
 De haver melhor em mim do que eu.
 Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
 Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
 De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
 De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
 De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. 
 Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
 Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
 De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
 A impressão de pão com manteiga e brinquedos
 De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
 De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
 Num ver chover com som lá fora
 E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
 Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
 O emissário sem carta nem credenciais,
 O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
 A quem tinem as campainhas da cabeça
 Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
 Sou eu mesmo, a charada sincopada
 Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
 Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos

Insônia

 

 

caminho.jpg

 

Não durmo, nem espero dormir. 
    Nem na morte espero dormir.  
   

 Espera-me uma insônia da largura dos astros, 
 E um bocejo inútil do comprimento do mundo. 

    Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, 
    Não posso escrever quando acordo de noite, 
    Não posso pensar quando acordo de noite — 
    Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite! 

    Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! 

    Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
    E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
    — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
    — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
    E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. 

    Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
    Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
    Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
    Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
    Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. 

    Estou escrevendo versos realmente simpáticos — 
    Versos a dizer que não tenho nada que dizer, 
    Versos a teimar em dizer isso, 
    Versos, versos, versos, versos, versos… 
    Tantos versos… 
    E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! 

    Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. 
    Sou uma sensação sem pessoa correspondente, 
    Uma abstração de autoconsciência sem de quê, 
    Salvo o necessário para sentir consciência, 
    Salvo — sei lá salvo o quê… 

    Não durmo.  Não durmo.  Não durmo. 
    Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! 
    Que grande sono em tudo exceto no poder dormir! 

   Ó madrugada, tardas tanto… Vem… 
   Vem, inutilmente, 
   Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta… 
   Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, 
   Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, 
   Segundo a velha literatura das sensações. 

   Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. 
   O meu cansaço entra pelo colchão dentro. 
   Doem-me as costas de não estar deitado de lado. 
   Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. 
   Vem, madrugada, chega! 

    Que horas são?  Não sei. 
    Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, 
    Não tenho energia para nada, para mais nada… 
    Só para estes versos, escritos no dia seguinte. 
    Sim, escritos no dia seguinte. 
    Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. 

    Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. 
    Paz em toda a Natureza. 
    A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. 
    Exatamente. 
    A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. 
    Costuma dizer-se isto. 
    A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, 
    Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. 
    Exatamente.  Mas não durmo.

Alvaro de Campos