A ilha

playa

A terra treme sempre em Isla Negra

 

       Encontramos a casa de Neruda à sombra  de seus pinheiros guardiães, rodeada pelos quatro lados por uma cerca de quase um metro de altura, que o poeta construiu ao redor de sua vida privada.Agora nasceram flores na madeira.Um letreiro adverte que a casa está lacrada pela polícia, e que é proibido entrar e tirar fotografias.O carabinero que rondava por ali de tanto em tanto foi ainda mais explicito: “Aqui está proibido tudo”.Como isto agente já sabia antes de chegar, o cinegrafista italiano levou um equipamento grande, muito visível, para que fosse retirado na barreira dos carabineros, e levou escondido outro equipamento, portátil. Além disso, o grupo foi dividido em três automóveis, com o fim de levar os rolos de filme para Santiago conforme fossem sendo filmados. Assim, se fossemos surpreendidos só perderíamos o material que tivéssemos naquele momento. No caso de uma surpresa eles fingiriam não me conhecer, e Franquie e eu seríamos turistas inocentes.

 

       As portas permaneciam fechadas por dentro, as janelas tinham sido cobertas por cortinas brancas, e o mastro da entrada não tinha bandeira, que só era içada para indicar que o poeta estava em casa.Porém, no meio de tanta tristeza, chamava a atenção o resplendor do jardim, que mãos desconhecidas se ocupam de cuidar. Matilde, a esposa de Neruda que tinha morrido pouco antes da nossa visita, levou os móveis  depois do golpe militar, levou os livros, as coleções de tudo de divino e de humano que o poeta fez ao longo de sua vida errante.Não era a simplicidade, e sim  uma grandiloqüência impressionante, o que distinguia as casas que ele teve em diferentes cantos do mundo.Sua febre de aprisionar a natureza não apenas em seus versos magistrais, que o levou ater coleções de caracóis dementes, de carrancas de proa, de borboletas de pesadelo, de taças e copos exóticos.Em algumas de suas casas agente se encontrava de repente com um cavalo empalhado que parecia vivo no meio de um escritório. Alem disso, entre suas grandes obsessões criadoras, a mais visível depois de sua poesia, e a menos gloriosa, era a de reformar a seu bel-prazer a arquitetura de suas casas. Uma delas era tão original, que para passar da sala de visitas à sala de jantar  era preciso dar uma volta pelo quintal, e o poeta tinha guarda-chuvas disponíveis para que seus convidados pudessem comer sem se resfriar, em tempos de chuva. Ninguém desfrutava mais nem ria mais que ele mesmo com seus próprios disparates. Seus amigos venezuelanos, que relacionam o mau gosto com o azar, lhe diziam que aquelas coleções eram pavorosas. Ou seja: fatídicas. Ele replicava morto de rir que a poesia é o antídoto para qualquer malefício, e demonstrou isso até a exaustão, com suas coleções temíveis.

       Na verdade, sua residência principal era a Rua Marqués de la Plata, em Santiago, onde morreu de uma velha leucemia apressada pela tristeza, poucos dias depois do golpe militar, e que foi saqueada pelas patrulhas de repressão que armaram fogueiras de livros no jardim. Com o dinheiro que recebeu pelo Premio Nobel, quando era embaixador da Unidade Popular em Paris, Neruda comprou na Normandia a antiga cavalariça de um castelo, depois transformada em residência, nas margens de um remanso com lótus de flores rosadas.Tinha uns tetos altos que pareciam abóbadas  de igreja, e uns vitrais cujas luzes pintavam no poeta cores radiantes, enquanto  recebia seus amigos sentado na cama, com sua pompa e sua autoridade de pontífice.Não chegou a desfrutá-la um ano.

      Mesmo assim a casa de Isla Negra é a que os leitores identificam melhor com sua poesia. Mesmo depois de sua morte e em seu estado atual de abandono, continua recebendo uma nova geração de namorados que não tinham mais de oito anos quando ainda vivia o poeta. Chegam do mundo inteiro, para gravar corações com iniciais escrever mensagens de amor na cerca que impede a entrada. A maioria são variações sobre o mesmo tema: Juan y rosa se aman a través de Pablo, Gracias Pablo porque tu nos enseñaste el amor, Queremos amar tanto como tu. Mas há outras  que os carabineros não conseguiram impedir ou apagar: El amor nunca muere, generales, Allende y Neruda viven, Um minuto de oscuridad no nos volverá ciegos.

Estão escritos ainda nos espaços menos esperados, e a cerca inteira dá a impressão de que há várias gerações de letreiros sobrepostos por falta de espaço. Se alguém tivesse a paciência de fazê-lo, poderiam ser reconstruídos poemas completos de Neruda pondo em ordem os versos soltos que os namorados escreveram de memória nas tábuas da cerca.O mais impressionante  de nossa visita, porém era que a cada  dez ou quinze minutos aqueles letreiros pareciam ganhar vida com os tremores profundos que sacudiam a terra. A cerca queria sair do chão, as madeiras rangiam nas dobradiças e ouvia-se tilintar de copos e metais como numa balandra à deriva, e a gente tinha a impressão de que era  o mundo inteiro que estremecia com tanto amor semeado no jardim da casa.

 

      Na hora da verdade, todas as nossas precauções foram inúteis. Ninguém apreendeu as câmaras nem impediu a passagem de ninguém, porque os carabineros tinham ido almoçar. Filmamos tudo, não só o que estava previsto  mas muito mais, pois Ugo estava dentro do mar, embriagado pelos tremores, e se metia até a cintura nas ondas que arrebentavam com um estrondo pré-histórico contra as rochas. Arriscava a vida, porque mesmo sem terremotos esse mar indomável o teria arrastado até os rochedos. Mas ninguém podia impedi-lo. Ugo filmava sem parar, sem direção, delirando no visor, e qualquer um que conheça por dentro o ofício do cinema sabe muito bem que é impossível dirigir ou controlar um cinegrafista em transe.

 

Gabriel Garcia Márquez em  A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile.

Pg. 74 a 76

 

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