O jardim de caminhos que se bifurcam


A Caetano Veloso

A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.

Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem,
precisamente,
precisamente agora.

Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.

Não é em vão
que sou bisneto daquele T’ui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal,
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.

Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.

Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.

Um labirinto de símbolos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.

Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
– um invisível labirinto de tempo –
que abarcasse o passado, o presente e o futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.

Não, não é verdade
que esta tarde ínfima, infinita
sem premonições ou símbolos
fosse a de minha morte implacável,
num jardim de caminhos que se bifurcam.
Tudo é abominavelmente irreal,
insignificante.

Georgeocohama 1985

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